À guisa de prefácio
“O Comerciante do Mato” é o título da dissertação que o Dr. José Carlos de Oliveira defendeu para o Mestrado em Estudos Africanos.
Português ex-residente no norte de Angola, filho dum acreditado comerciante desta província, e ex-comerciante ele mesmo, o Autor domina soberanamente a matéria e nela navega com o à vontade de peixe na água.
Embora não haja visível proximidade nem qualquer parentesco entre o mato de Angola e um mestrado em Lisboa, o tema escolhido, além de original, é na matéria de sobremaneira esclarecedor, e parece-me que vem preencher uma lacuna na história da cultura não só angolana como também lusíada.
O angolano conguês caracteriza-se por um pragmatismo imediatista, que faz dele um comerciante nato. Investimentos que façam esperar muito tempo pelo lucro não o seduzem. Ele quer investir hoje e lucrar amanhã. Daí, a sua sedução pelo comércio, mesmo desde criança.
Por sua vez, os portugueses em Angola, como quaisquer outros colonos europeus em África, encontraram no comércio a via mais directa para se estabelecerem economicamente e se integrarem no meio do povo. De tal maneira isto marcou a imagem do colono que, ainda hoje, para certos africanos, o caminho mais curto da sua promoção socioeconómica é ser funcionário ou comerciante.
O papel da mulher no comércio de Angola é de vital relevância. Por isso, a alusão feita à mesma pelo autor reveste felicíssima pertinência. Se houvesse de elaborar uma tese de doutoramento, bem poderia escolher para seu título “A comerciante das praças”. É que em Angola, como no resto da África Ocidental, cerca de 80% dos produtos agrícolas são comercializados pela mulher.
Só me resta fazer votos para que o ” Comerciante do Mato” receba o acolhimento que bem merece, como capítulo integrante da Sociologia africana que não pode deixar de ser.
Uíje, 21 de Dezembro de 2003
Francisco de Mata Mourisca
Bispo do Uíje
