Artigo de Opinião sobre o livro
Extraído do jornal “A voz de Alcobaça” de 31/10/2004
O Comerciante do Mato – uma personagem pacífica na guerra de África
Com o comércio tradicional quase asfixiado pelas grandes superfícies, que vão assentando arraiais em todas as terras portuguesas, nas quais os cartões plásticos, as senhas e o dinheirinho à vista, pressurosamente arrumado na gaveta da caixa registadora por meninas fardadas que mais parecem hospedeiras de bordo, com chapinha ao peito e um encomendado sorriso nos lábios, substituíram o ruinoso livro de assentamento de dívidas dos merceeiros de lápis na orelha, com o comércio tradicional – dizíamos – em sérias dificuldades, é preciso ter coragem (e categoria, também!) para trazer à superfície e falar publicamente de um tema tão primitivo e longínquo como “O Comerciante do Mato”, neste caso e mais exactamente, o comércio praticado no interior de Angola e Congo – antes e durante uma guerra em que as partes beligerantes se serviam dos mesmos fornecedores!…
O Hotel D. Inês de Castro, em Alcobaça, testemunhou na pretérita sexta-feira, dia 22, uma curiosa e interessante palestra promovida pelo Rotary Clube, sob a presidência de Manuel José Costa Coelho da Silva, que ali levou meia centena de atentos participantes que assistiram a uma autêntica lição de história africana, onde os Portugueses desempenharam papel de relevo, no melhor e no pior. Como orador convidado, esteve o antropólogo José Carlos de Oliveira, senhor de uma invulgar experiência sertaneja, que lhe garantiu um profundo conhecimento da cultura indígena – expressa no livro que escreveu -, cujas seculares tradições conhece como a palma das suas mãos.
O documentário exibido é em todos os sentidos profundamente elucidativo “Daquela África” e os documentos historicamente ricos de que é detentor, mercê de incessantes buscas e pesquisas, a par da incomensurável riqueza humana que possui, caldeada pelo seu contacto de décadas com as populações, nomeadamente do interior norte angolano, transformaram o seu espólio material e espiritual num repositório histórico da presença portuguesa em África de importância nacional.
A dissertação atravessou séculos e peregrinou pelo mato da imaginação dos que por lá andaram como militares, e dos que, nunca lá tendo ido, sentem o fascínio dum continente divinamente dotado e tão humana e belicamente martirizado.
O palestrante soube expor e responder com elegância e inteligência àqueles que o inquiriram -Antero Leal Cerol, que fora cliente de seu pai (!) quando cumpriu serviço militar naquela região; José Trindade, que trabalhou imenso com o continente africano; António José Nobre, admirado como é que o pai Oliveira, num teatro de guerra, conseguira estar de bem com Deus e com o Diabo – (“Hoje não se colocam flores aos pés daqueles que foram nossos inimigos?…” – perguntou, respondendo ?!); Carlos Feliciano, “então, , os indígenas não tinham já uma civilização antes de aparecerem os missionários portugueses?”; e José Pereira F. Alexandre, “Afinal, o que fizemos e o que ganhámos com África?”.
Nenhuma pergunta ficou sem resposta, sempre coerente, lógica e fundamentada, humana e sensível. A experiência de décadas como “comerciante do mato”, recheada de vicissitudes estoicamente partilhadas com a esposa Maria Cândida, período em que vendeu de tudo o que era possível importar da metrópole, desde fósforos a chitas, riscado, zuarte, vinho, pregos, fogareiros a petróleo (da marca Hipólito, de Torres Vedras – lembram-se ainda?), etc, etc, o palestrante enganou e foi enganado pelo preto com quem comerciava, um, utilizando o peso que não tinha por baixo o chumbo que lhe conferia legalidade, ou adulterando o vinho tão apreciado; o outro, também manhoso, deixando o milho ou o amendoim de noite expostos ao cacimbo para que absorvessem a humidade e na manhã seguinte pesassem um pouco mais…
Aos 66 anos de idade, José Carlos de Oliveira, também ele antigo militar com desempenho nos serviços de informação do exército português, prepara-se (agora, mais cuidadosamente…) para defender a tese de doutoramento a propósito deste tema que, segundo o Bispo de Uíje, D. Francisco da Mata Mourisca, “preenche uma lacuna na história da cultura não só angolana como lusíada, depois de em 1996 ter visto uma pequena tentativa reprovada, ao que parece, por ingenuamente ter dito o que pensava e o muito que sabia. Em 1996!!
Que o seu conhecimento, a sua coragem e a sua experiência de vida sejam, desta vez, bem sucedidos!
J.M.P.
